Temas polêmicos em Teologia Moral


O prazer sexual fora da procriação é um pecado?

 

Sim, dizem uns; não, bradam outros. E agora? Esta, por incrível que pareça, também é uma questão que ainda se escuta por aí, em pleno século XXI, a partir, não de jovens solteiros, mas de pessoas casadas, gente de mais idade. Essa confusão tem uma origem identificada. Há questão de alguns anos atrás, o papa João Paulo II declarou, na Europa, que

...o prazer gratuito é contrário ao plano de Deus [...]; todo ato sexual deve estar aberto à vida .

Isso eqüivale a dizer que a sexualidade humana tem por fim exclusivo a procriação, e que não é lícito usá-la como outro objeto que não seja o de gerar filhos. Não é esta outra forma de dizer que só haverá ato sexual lícito caso haja a disposição de colocar outro ser na terra? Sim, pois um ato sexual que não leve, seja pelo motivo que for, o casal à geração de uma nova vida, segundo aquela advertência, está fadado à ilicitude, quando não ao pecado, pois “é contrário ao plano de Deus”.

A questão acendeu a polêmica, em face da hierarquia de quem partiu a afirmação, e pelo cunho do texto, que parece ignorar os interesses do casal. Isso evidencia, de parte de alguns segmentos, seguramente celibatários, a tentativa de implantação de uma religião anti-sexual e repressiva, tal qual fora na idade média, em que o ato sexual dos casados era visto como “pecado venial”. Idéias desse tipo conduzem as pessoas, não à santidade mas aos complexos de culpa e a muitas frustrações.

A insistência excessiva sobre a teologia da cruz não deve condenar ninguém a um estado de permanente e amarga frustração, esquecendo que a “ressurreição e a vida” já estão presentes e ativas no coração do mundo e de cada homem .

Se a declaração papal (que não é dogmática) for levada ao pé da letra, o resultado será que a maioria das relações sexuais de um casal passarão a ser vistas, sob aquele prisma de moral, como ilícitas. Acredita-se como condenáveis e moralmente desordenadas aquelas relações não baseadas no amor, em que o outro é usado como simples instrumento da satisfação de necessidades circunstanciais. Ora, como sabemos que a sexualidade é uma das pilastras do casamento humano, se a retirarmos, porque o casal não deve mais praticá-la, uma vez que não quer/não pode mais ter filhos, a ruína é iminente, tornando-se uma porta aberta à infidelidade e à separação.

As Igrejas protestantes não usam a imagem do crucificado, mas apenas a cruz nua, lembrando o sacrifício, sim, mas apontando para a ressurreição e rejeitando qualquer idéia mórbida. A felicidade, o prazer, é direito e dever do ser humano, máxime dos casados. O homem é desejoso de ser feliz (direito) e de fazer feliz (dever). A ventura, a alegria, o gozo são direitos pessoais e sociais, motor e meta; graça e tarefa.
O cristão diz um sim fundamental à toda a realidade criada, em particular ao corpo e às paixões. Todavia, é consciente também da fragilidade de sua condição pecadora e, mais ainda, de necessidade de redenção integral .

São tidas como universais, as exigências da moral quanto à sexualidade humana. A Igreja sempre primou por mostrar o caminho do bem, do bom e adequado uso da natureza e dos instintos, para que a pessoa (homem e mulher) seja feliz, se realize sem excessos ou atitudes moralmente desordenadas. O cristão, nessa época pós-puritana em que se vive, embora desfrutando de forma moderada, não pode repudiar a beleza, a arte, a comida, o prazer e muitas outras coisas, sem esquecer do próximo, com quem está em sintonia e diálogo, e por sua causa precisa manter uma escala de valores.

O homem e mulher não se casam para satisfazer a concupiscência, nem para a procriação. Eles se casam porque são seres sexuados, e a união duradoura, formando um casal, é o âmbito mais apropriado para realizar em plenitude todos os aspectos, pessoais c comunitários, da sexualidade e do amor .

Há tempos, escutei o relato de uma senhora, pela boca da própria, cujos valores, oriundos de uma rígida criação estavam em conflito com as investidas do marido. Ao que parece, o que o marido sugeria, em termos de atividade sexual não era nada demais, mas constrangida por um complexo de culpa que lhe fora inculcado na formação religiosa, ela tinha problemas de consciência, e decidiu aconselhar-se com um confessor. Aí ocorre um grande perigo.

Dependendo da linha, mais ou menos conservadora, o conselheiro poderia tê-la aconselhado de forma negativa, e o casamento de muitos anos, como um todo, estaria em xeque. Para o equilíbrio da sexualidade conjugal, é preciso descobrir aquilo que o grande moralista A. Moser chama de “evangelho da sexualidade”:

Daí resulta a necessidade de desvelar o “evangelho da sexualidade”. Este evangelho, que nos faz penetrar no mistério escondido desde a eternidade, e resgata a sexualidade como “sacramento primordial da criação” e conjuga harmoniosamente elementos que aparentemente se excluem: a cruz e a ressurreição, o “eu” e o “tu”, o humano e o divino .

Distorções pedagógicas a respeito da sexualidade matrimonial, geraram no passado (e pode haver remanescentes até hoje) condutas errôneas, de cunho jansenista, como o da mulher que cede aos desejos do marido, pas plaisir, mais devoir (sem prazer, mas por dever) Uma relação assim está condenada ao fechamento, ao embrutecimento e até à infidelidade e ruptura.

Ainda segundo a declaração papal aludida, os casais que, tendo um número adequado de filhos, exercendo uma paternidade responsável, ou não podendo mais ter sua prole, ou tendo relações fora do chamado período fértil estão em desacordo, e por isso deveriam suspender sua atividade sexual, pois usando o sexo fora do projeto da geração de filhos, estariam incorrendo numa atitude desordenada, intrinsecamente ilícita, capitulando até, quem sabe, uma situação de pecado. Igualmente, o sexo quando a esposa já atingiu a menopausa, então, nem pensar. Ora, sabemos que é difícil mesmo para alguém decidido pelo celibato, manter essa continência, como exigi-la, então de um casal jovem, com trinta e poucos anos, cujo projeto de vida não inclui o celibato, e que não pretende ter mais filhos que já tem?

Tais proibições ou restrições, ao invés de ajudar, geram tabus, pensamentos confusos, idéias distorcidas, comportamentos maliciosos e, invariavelmente, traumas. Ainda há quem vincule as relações sexuais de um casal ao pecado original, à desobediência e à rebelião dos anjos. Por mais incrível que possa parecer! O pensamento medieval, de cunho escolástico, bateu forte na sexualidade, e alguns de seus axiomas se fazem sentir ainda hoje:

O instinto sexual é um efeito do pecado original e é indelevelmente marcado por sua origem. Permitir que esta força se expresse livremente seria perpetuar a rebelião primeira. As relações sexuais precisam de uma desculpa. O prazer que elas pressupõem pode ser tolerado, mas jamais desejado .

A natureza do ser humano dotou-o de um mecanismo de prazer agregado ao mistério e ao dom da sexualidade. Apenas homem e mulher têm prazer no sexo e o praticam fora das possibilidades reprodutoras. O homem, pela renovação dos espermatozóides, pode procriar até idades avançadas. A mulher não. Esta, em média, depois dos quarenta e cinco anos não pode mais ter filhos. A suspensão da função geradora, no entanto, não lhe tolhe, de forma alguma a libido e a capacidade de sentir prazer. Estaria a natureza errada? Não creio! Enquanto os animais não têm prazer e só usam a sexualidade para a reprodução, o mesmo não acontece com o ser humano.

Além disto, se o prazer fosse pecaminoso (como afirmam alguns poucos), os humanos não viriam dotados dessa graça. Se, assim fosse, já que o homem só consegue ejacular (para fecundar) num clímax de prazer, esse prazer seria desnecessário às mulheres, que fecundam com ou sem prazer. Então, se também a mulher nasce dotada de uma misteriosa capacidade e aptidão ao prazer, e que tais faculdades são desnecessárias para a procriação, constata-se uma abertura copiosa ao prazer, ordenado e no âmbito da relação amorosa estável, leva-a a unir-se ao marido, para que ambos vivenciem tudo o que o amor, em termos físicos, afetivos e psicológicos pode lhes proporcionar.

Há muitas questões, também quanto à prática do sexo fora daquela esfera considerada padrão, pênis/vagina. Hoje em dia toma vulto, entre muitos casais o “sexo total” (vaginal/oral/anal). A conduta dos orientadores situa-se, geralmente, na liberdade e no respeito. Algo pode ser feito ou rejeitado, observando-se a vontade dos dois, a liberdade em fazer ou deixar de fazer e – sobretudo – o respeito à pessoa humana. A maioria dos especialistas considera válidos os atos que dêem prazer a ambos e sirvam – de comum acordo – para estreitar os laços de amor e companheirismo do casal.

É lógico e mais que isto, é bio-lógico, que a sensação de prazer advindo do sexo tem outras ramificações, que às vezes passam despercebidas por quem não vive a sexualidade em sua vida. A verdade é que a sexualidade, com ou sem fins procriativos faz parte da essência psicológica do casal. Privá-los disso é colocar em perigo a continuidade da relação, a partir da quebra do interesse e da fidelidade, recíprocos.

A moral deve entrar no prazer. Mas também o prazer tem que entrar na moral. A “absolutização” do prazer no sistema moral leva ao erro da “desorbitação”: aí reside a vulnerabilidade dos sistemas éticos fechados sobre o hedonismo. De outra parte, a “negação” do prazer no universo moral conduz a uma “mutilação” de um traço da realidade humana: aí reside a “inumanidade” dos sistemas éticos que se fecham à realidade do prazer. Todo sistema moral autêntico assinala um lugar específico ao prazer e, consequentemente, exige certa dose de hedonismo .

Em A. Hortelano vamos buscar mais luzes para o nosso debate:

Uma sexualidade biológica, que não passa de biologia, tal como estão programados os animais, é má sexualidade, que sequer funcionará como sexualidade. No ser humano a sexualidade biológica, que nele nasce automaticamente e sem lhe pedir licença, deve tornar-se humana, expressando o amor interpessoal do casal, dando-lhe consistência .

No próprio São Paulo, em algumas coisas bastante ortodoxo e radical, vamos encontrar uma abertura dinâmica sobre o assunto. Ele lembra que os esposos devem viver em plena comunhão, física e espiritual:

Para evitar a imoralidade, cada homem tenha a sua esposa e cada mulher o seu marido. O marido deve cumprir o dever conjugal para com a esposa, e a esposa faça o mesmo com o marido. A esposa não é dona de seu próprio corpo, e sim o marido. Do mesmo modo, o marido não é dono de seu corpo, e sim a esposa. Não se recusem um ao outro, a não ser que estejam de comum acordo e por algum tempo, para se entregarem à oração; depois disto voltem a unir-se, a fim de que Satanás não os tente por não poderem dominar-se (1Cor 7, 2-7).

Com isso, o apóstolo nos mostra que o matrimônio é lugar por excelência, da vida, do amor, da unidade e da vida sexual, feita de dom e disponibilidade recíproca (cf. Ef 5, 4-33).